Faltavam nove dias para o primeiro aniversário. A mãe já havia começado a organizar a festinha do filho, que nasceu na antevéspera do Natal, no dia 23 de dezembro de 2014. Não houve comemoração, só tristeza e dor. Era segunda-feira, 14 de dezembro de 2015, começo da noite, quando a avó da criança ouviu um tiro e pensou que fosse mais um sinal sonoro da violência corriqueira do bairro.

Os vizinhos, que escutaram o som mais de perto e também o choro desmedido de um bebê, subiram as escadas do condomínio e se depararam com um rapaz em fuga, dizendo que tinha sido um acidente. Quando os vizinhos entraram no apartamento, viram uma adolescente arquejando na rede de dormir e a criança aos gritos sobre ela. Era a companheira do rapaz que havia se evadido, a mãe que não iria celebrar o primeiro e mais nenhum aniversário do filho.

Um amigo da família correu até o comércio da mãe da vítima para dar a triste notícia. “Quando ela chegou ao apartamento da filha, a garota ainda respirava na rede com o tiro na cabeça. A mãe correu, com outro vizinho que tem carro, e levou a filha ainda com vida direto para o hospital. Pouco tempo depois, ela veio a óbito”, descrevem as pesquisadoras do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, Ana Paula Neves e Mara Carneiro.

O laudo emitido pela Perícia Forense do Ceará não deixou dúvidas: o agressor fez o disparo à queima-roupa. “Ele encostou a arma na cabeça dela. O rosto dela ficou queimado, não só perfurado pelo tiro”, esclarece a mãe. Além do documento oficial, os pais da adolescente tiveram uma prova ainda mais contundente e dolorosa de que não foi acidente: os resquícios de pólvora permaneceram por alguns dias no corpo do neto.

Quando a adolescente foi atingida pelo disparo, estava deitada com o fi lho ao peito. No momento magistral em que amamentava a criança, cena icônica da maternidade, ela foi brutalmente
assassinada. “Morreu pelo punho do próprio companheiro, amamentando em uma rede, acalentando o filho para dormir. O bebê dormia mamando. A forma de fazê-lo dormir era dar de mamar”, relatam as pesquisadoras do comitê, a partir da entrevista realizada com o pai e a mãe da adolescente.

Os dias seguintes à tragédia foram os mais difíceis que o casal viveu. “O pequeno neto chorava a noite inteira, queria mamar, mas não era possível substituir o leite materno apenas pelo mingau na mamadeira. Não era só de fome que ele chorava, mas de saudade do afeto, do cuidado e do carinho da sua jovem mãe”, concluem as pesquisadoras. “Muitas vezes, ele acorda à noite gritando, desconsoladamente, sem que nada explique. Ainda pede para mamar, mesmo cinco meses depois da morte da mãe”, escreveram à época, com base no relato da avó.

O menino estava começando a balbuciar as primeiras palavras, mas após o crime teve um retrocesso no processo da fala. “Durante a entrevista o conhecemos, o vimos brincar, gargalhar e o carinho que sua avó lhe dava. Ela dizia que o sorriso dele é idêntico ao da mãe, nos mostrou fotos e vídeos e deixou muito claro para esta dupla de pesquisadoras, sem dizer nenhuma palavra, que a violência contra a adolescência tem que acabar”.

Cinco meses depois do crime, o caso seguia sem investigação, não tendo sido nem encaminhado à Delegacia de Homicídios. E o agressor continuava foragido. A adolescente conheceu
o rapaz e passou a se relacionar com ele quando já havia se separado do pai da criança e o bebê estava com nove meses.

A adolescente foi surpreendida pela gravidez, pois tomava comprimidos anticoncepcionais, mas ficou feliz quando recebeu o exame com o resultado positivo no dia em que completou 16 anos. “Ela sempre quis ser mãe”, atesta a avó do garoto. Ao descobrir a gravidez, a menina foi morar com o namorado, com o qual já mantinha um relacionamento sério havia quase um ano, mas a relação afetiva entre eles já não ia bem.

A adolescente foi se decepcionando com o companheiro e acabou rompendo o namoro. Ele tornou-se paraplégico em consequência de participação em práticas ilícitas, e atualmente vive em cadeira de rodas – depois de ter sido baleado em situação de conflito, perdeu os movimentos dos membros inferiores.

Quando a adolescente resolveu voltar para a casa dos pais, eles se sentiram aliviados. “Sempre achei que aquele cara iria fazer algo ruim, matar minha filha. Quando acabou, achei que o risco tinha acabado também. Mas infelizmente não tinha acabado”, conta, de forma emocionada, o pai da garota.

Com a ajuda dos pais, ela foi reconstruindo a vida, sobretudo por meio do trabalho. A adolescente havia deixado a escola, ao concluir o ensino fundamental, pois dizia que não se sentia bem em frequentar as aulas estando grávida, mas que retomaria os estudos quando o bebê nascesse. Como ele já estava prestes a completar um ano, a jovem mãe se preparava para voltar à escola no início do ano letivo de 2016.

O segundo companheiro, responsável pela morte da adolescente, também não recebeu a aprovação dos pais dela, pois era outro rapaz envolvido com práticas ilícitas. “No entanto, a família
reconhece que, quando ele passou a namorar a garota, começou a mudar de vida e a se distanciar de atividades ilegais, mas que esse afastamento não durou muito e desagradou a adolescente”.

O rapaz também era muito ciumento, o que a família só ficou sabendo depois da tragédia. “As amigas contaram que ele já havia mordido sua perna uma vez porque ela teria usado um short curto
e que também já havia batido nela. Por causa dessa situação, ela pensava em terminar o namoro. Mas não falava sobre isso com seus pais”. A mãe acredita que a fi lha vinha sendo ameaçada porque desejava pôr fim ao relacionamento. “Quando ele ligava, ela já saía correndo para encontrá-lo, demonstrava sentir medo dele”.

Nos últimos dias de vida, a adolescente passava a maior parte do tempo na casa dos pais, mas à noite voltava para o apartamento onde residia com o companheiro e a mãe dele, no mesmo condomínio. Durante o dia, a garota se revezava entre os cuidados com o fi lho e o trabalho. No apartamento térreo, os pais montaram um pequeno comércio de gêneros alimentícios e produtos diversos, e a filha improvisou um salão de beleza, sonho acalentado desde a infância.

Aos cinco anos, a menina já manifestava o desejo que carregaria ao longo da vida tão curta. “Mãe, quando eu crescer, eu vou abrir um salão pra nós duas trabalhar”. Criança, brincava de cabeleireira com a mãe. Adolescente, queria fazer um curso profissionalizante na área e construir um “puxadinho” na casa dos pais para montar um autêntico salão de beleza. Pouco tempo antes do assassinato, a avó materna começou a fazer uma pesquisa para solicitar um empréstimo e realizar o sonho da neta. “Mas não deu tempo”, suspira a mãe, em voz baixa.

A menina tinha a inclinação inata para o trabalho. Aos dez anos, passou a ajudar a mãe e a avó numa facção de roupas. Quando os pais assavam pastéis para vender, saía oferecendo as frituras
na casa das amigas. Na adolescência, conseguiu comprar alguns equipamentos para fazer procedimentos estéticos na própria residência. “Sua mãe lembra que a adolescente, às vésperas de entrar
em trabalho de parto, com os pés muito inchados, trabalhava o dia inteiro fazendo prancha e hidratação. Depois que o bebê nasceu, ela também não parou. Além das atividades no salão de beleza, revendia moda íntima e confecção para as pessoas da comunidade”, contam as pesquisadoras.

O nascimento do filho só aumentou o senso de responsabilidade da adolescente. Apesar da pouca idade e da inexperiência, “era uma mãe exemplar”, esmerando-se em cuidar da criança em todos os aspectos, desde as necessidades cotidianas de afeto e proteção até as demandas financeiras, como afirma a avó do menino. “Muitas vezes, a mãe da adolescente perguntava se o bebê estava precisando de alguma coisa, mas ela sempre respondia que não estava. A jovem mãe nunca pedia nada para o fi lho. Batalhadora e muito inventiva, procurava produtos que poderiam ser vendáveis no entorno onde morava e, assim, sempre tinha algum dinheiro para o sustento do filho”.

A disposição para o trabalho e o senso de responsabilidade, características próprias de pessoas mais maduras, coexistiam naturalmente como qualidades presentes desde a infância. “Ela
não perdeu o jeito de menina, risonha e extrovertida”, observa a mãe. Mesmo quando mudou da Comunidade Oito de Dezembro, quase no limite de Fortaleza com Maracanaú, para o
Conjunto Habitacional do Canindezinho, a menina continuou cultivando as amizades antigas e estabelecendo novos laços. “Se você perguntar aqui dentro quem era ela, todo mundo vai saber dizer”, frisa a mãe, com a expressão natural de orgulho.

A adolescente sempre teve muitos amigos e como uma das principais diversões fi car na calçada de casa “batendo papo” com eles. De casa, ela só saía para a escola e para a igreja, onde participava de um grupo de jovens. “Eu tinha muito medo de deixar ela sair pros cantos”, explica a mãe, receosa dos perigos ‘do mundo lá fora’. Ela mantinha a fi lha por perto, acreditando que, dentro do condomínio, estava sob proteção.

A menina brincalhona e de risada contagiante cativava os de fora e os de casa. Era boa aluna, carinhosa com os pais e apegada aos irmãos – com o mais novo, de dez anos, ela dividia a cama ao dormir; o mais velho é criado pela avó materna, trabalha e estuda análise de sistemas em uma faculdade privada. Emocionada, a mãe relembra os gestos e palavras de afeição que a filha repetia todas as vezes antes de dormir – “Boa noite, mãe! Eu te amo” – e ao amanhecer.

“Apesar do trabalho duro, os pais nunca deixaram de cultivar a afetividade familiar, o que fez com que os vínculos desta família fossem muito fortalecidos”, constataram as pesquisadoras do Comitê pela Prevenção de Homicídios. Os dois jovens pais, ele com 32 anos e ela com 39, sempre trabalharam muito e em diversos tipos de ocupações para garantir a sobrevivência da família e contaram em muitos momentos com a ajuda da avó materna da adolescente, que sempre morou perto do casal.

“Obviamente, essa história se difere de outros assassinatos de jovens no Ceará, mas dialoga diretamente com todo o contexto que é pano de fundo para as tramas da violência juvenil atual, em um estado do Nordeste marcado pelo machismo, autoritarismo, racismo e desigualdade. Ela não era só adolescente, era não branca e era mulher, condição juvenil que a deixou vulnerável para ser vítima de homicídio pelo próprio namorado, que também era um jovem morador do mesmo território. Debater gênero e a desconstrução do machismo nos parece essencial também para o enfrentamento da violência juvenil”, concluem as pesquisadoras.

*Esta história de vida foi escrita pelo jornalista Raimundo Madeira, no relatório Cada Vida Importa, a partir do diário de campo produzido pela assistente social Mara Carneiro e pela economista doméstica Ana Paula Neves, pesquisadoras do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência.