Bola na área sem ninguém pra cabecear. Nem sempre é uma coisa linda uma partida de futebol. O menino de apenas 16 anos foi baleado enquanto jogava com os colegas do bairro onde morava, em Maracanaú. Ele deveria estar na igreja evangélica, como de costume, mas, naquela noite de sexta-feira, 11 de setembro, não havia culto. Ao chegar da escola no fi m da tarde, o estudante pediu à mãe para brincar de bola com o amigo e fi lho do pastor, que residia no mesmo bairro, Conjunto Jereissati II.

Depois da brincadeira, no caminho de volta para casa, numa travessa perto de onde morava, o garoto encontrou outros colegas e se juntou a eles. Estava rolando uma partida de futebol, com várias pessoas da comunidade assistindo. Em poucos minutos, o campo de jogo virou campo de batalha. Dois homens invadiram o local, um efetuando vários disparos em direção ao outro. Um dos tiros feriu de morte o adolescente. Ele ainda foi levado ao hospital, porém a tragédia estava consumada, para desolação da pequena família. Que dor, imenso crime!

O contato inicial das pesquisadoras do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência com a mãe do adolescente já foi bastante revelador do sofrimento familiar. “Ao nos aproximarmos da residência e batermos palmas, um menino que estava a assistir televisão chamou sua mãe. Ela logo apareceu e nos convidou a entrar. Era a mãe do adolescente vitimado, de 38 anos. Destacava-se por ser uma mulher jovem, bonita, bem vestida. Explicamos o objetivo da visita. Ela consentiu em participar, mas demonstrava uma profunda tristeza no olhar. Iniciamos a aplicação do instrumental e, antes de completarmos a primeira coluna de perguntas, ela já se expressava com dificuldade, visto sua voz embargada. Com a cabeça baixa e a tristeza mais perceptível, as lágrimas não tardaram a cair. Mas, à medida que o choro foi liberado, ela foi fi cando mais à vontade para conversar. Percebemos, então, que a dor da perda ainda estava muito presente, não só nela, mas na família. Essa entrevista foi uma das mais marcantes da pesquisa em termos de emoção, que se somou ao perfil do adolescente e ao arranjo familiar, os quais se distanciavam, em determinados aspectos, dos casos estudados”, observa a pesquisadora Ana Paula Neves.

Era o filho primogênito, fruto de uma gravidez planejada. Desejado e muito amado pelos pais, ganhou o único irmão aos oito anos, com quem mantinha uma relação de grande afeto. Quando criança, costumava brincar com os meninos do bairro. Na adolescência, frequentava muito a quadra de esportes e andava pouco na casa dos amigos, mas recepcionava sempre os colegas. “Ele era muito tímido, calado, caseiro, só andava de casa para a igreja”, relata a mãe. Mesmo ainda tão novo, já participava de um grupo de jovens evangélicos que se dispunham a desenvolver ações de arrecadação de alimentos para doação a famílias em situação de pobreza.

Aplicado aos estudos, cursava regularmente o segundo ano do Ensino Médio. “Nunca recebi reclamações dele na escola, ao contrário, só elogios por onde ele passou”, revela a mãe. O estudante, que se interessava pela área de Telemarketing, chegou a ser transferido de escola, mas por medo da violência, pois já havia sido assaltado algumas vezes no percurso até o estabelecimento de ensino.

O futebol era a grande paixão, que fomentava uma outra. “O pai era apaixonado por ele além da conta”, diz a mãe, reconhecendo até um pouco de ciúmes do forte apego entre os dois. O gosto em comum pelo esporte aproximava ainda mais pai e filho. O pequeno torcedor do São Paulo tinha a companhia do pai para assistir aos jogos na televisão e conversar horas a fio sobre esse e outros assuntos. “O pai ensinava muito o que era a vida, conversava muito com ele, orientava sobre drogas, que não devia namorar mulher casada, pois ele era bonito – chamava muito a atenção, até as mulheres casadas ficavam olhando pra ele”, acrescenta a mãe.

Pais e filhos compartilhavam os programas de lazer dentro e fora de casa e também dividiam os afazeres domésticos. O respeito recíproco fazia com que o adolescente fosse amoroso, sempre
muito obediente e ajudasse na limpeza da residência, varrendo os cômodos e secando as louças. “Nunca se envolveu com o que não prestava”, ressalta a mãe, detalhando que o garoto jamais
usou drogas ou cometeu atos ilícitos, bem como não tinha acesso a armas de fogo nem convivia com pessoas que tivessem.

Diante da fatalidade, a família se mantém unida, agora também em torno da dor. “Sou praticamente mergulhada nos remédios”, desabafa a mãe, depois de ter passado por acompanhamento
psicológico durante meses, mas decidido parar por conta própria. O fi lho também recebeu atendimento por um período, pois sentiu muito a morte do irmão, a principal companhia. “A
mãe relembra que o menino ficou agitado, revoltado, costumava pedir para ela arranjar algo para ele brincar. Primeiro, ela conseguiu um gato, mas, ao viajarem ao Piauí, o avô se afeiçoou ao
animal e pediu ao garoto para ficar com ele. O menino, então, cede o gato ao avô e arranja uma nova companhia, dessa vez um periquito”, descreve Ana Paula Neves.

O pai também necessita de suporte emocional para enfrentar o forte abalo. A companheira revela que ele prefere não tocar no assunto e, se estivesse em casa durante a visita dos pesquisadores do comitê, teria se recusado a conversar sobre o filho. “Enquanto conversávamos, o marido telefonou para a esposa, e ela comentou que, após a morte do fi lho, ele vai trabalhar, mas liga constantemente para saber se está tudo bem. Nesse momento, fiquei pensando que aquele gesto era uma demonstração do amor e cuidado tantas vezes expressado pela mãe ao relatar a vivência da família com o filho falecido”, observa a pesquisadora do comitê.

O sofrimento não imobilizou o pai, que continua trabalhando e ainda busca justiça, apesar do despreparo e da indiferença institucional. Ele foi à delegacia, mas destaca ter sido muito mal
atendido, apesar do estado de dor. A família não conhece o responsável pela morte do fi lho. O delegado se limitou a informar que o autor já havia cometido vários outros crimes na região e a endossar a hipótese circulante na comunidade, onde se comenta que o rapaz que estava sendo perseguido vingou a morte do adolescente, pois o “assassino matou um inocente e deveria morrer”.
O episódio que resultou na morte do garoto seria decorrente do conflito entre membros de gangues rivais.

A mãe do garoto considera que o problema da violência é agravado pela falta de justiça. “Na justiça aqui da terra, eu não acredito. Meu fi lho era inocente, e as autoridades nada fazem”. O adolescente tinha o mesmo nome de um profeta do Antigo Testamento, que significa “aquele que é julgado por Deus”. Diferentemente do personagem bíblico, que viveu até os 72 anos, a morte chegou prematuramente para o adolescente evangélico de Maracanaú, logo no exato momento de intensa felicidade para o garoto. Ele passou a vida olhando para a bola e vendo o sol, mas nem sempre é uma beleza uma partida de futebol.

*Esta história de vida foi escrita pelo jornalista Raimundo Madeira, no relatório Cada Vida Importa, com base no diário de campo produzido pela economista doméstica Ana Paula Neves, pesquisadora do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência.