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	<title>Histórias de vida - Cada vida importa</title>
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	<description>Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência</description>
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	<title>Histórias de vida - Cada vida importa</title>
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		<title>Paixão e morte entre quatro linhas</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Dec 2017 14:27:21 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Bola na área sem ninguém pra cabecear. Nem sempre é uma coisa linda uma partida de futebol. O menino de apenas 16 anos foi baleado enquanto jogava com os colegas do bairro onde morava, em Maracanaú. Ele deveria estar na igreja evangélica, como de costume, mas, naquela noite de sexta-feira, 11 de setembro, não havia culto. Ao chegar da escola no fi m da tarde, o estudante pediu à mãe para brincar de bola com o amigo e fi lho do pastor, que residia no mesmo bairro, Conjunto Jereissati II.</p>
<p style="text-align: left;">Depois da brincadeira, no caminho de volta para casa, numa travessa perto de onde morava, o garoto encontrou outros colegas e se juntou a eles. Estava rolando uma partida de futebol, com várias pessoas da comunidade assistindo. Em poucos minutos, o campo de jogo virou campo de batalha. Dois homens invadiram o local, um efetuando vários disparos em direção ao outro. Um dos tiros feriu de morte o adolescente. Ele ainda foi levado ao hospital, porém a tragédia estava consumada, para desolação da pequena família. Que dor, imenso crime!</p>
<p style="text-align: left;">O contato inicial das pesquisadoras do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência com a mãe do adolescente já foi bastante revelador do sofrimento familiar. “Ao nos aproximarmos da residência e batermos palmas, um menino que estava a assistir televisão chamou sua mãe. Ela logo apareceu e nos convidou a entrar. Era a mãe do adolescente vitimado, de 38 anos. Destacava-se por ser uma mulher jovem, bonita, bem vestida. Explicamos o objetivo da visita. Ela consentiu em participar, mas demonstrava uma profunda tristeza no olhar. Iniciamos a aplicação do instrumental e, antes de completarmos a primeira coluna de perguntas, ela já se expressava com dificuldade, visto sua voz embargada. Com a cabeça baixa e a tristeza mais perceptível, as lágrimas não tardaram a cair. Mas, à medida que o choro foi liberado, ela foi fi cando mais à vontade para conversar. Percebemos, então, que a dor da perda ainda estava muito presente, não só nela, mas na família. Essa entrevista foi uma das mais marcantes da pesquisa em termos de emoção, que se somou ao perfil do adolescente e ao arranjo familiar, os quais se distanciavam, em determinados aspectos, dos casos estudados”, observa a pesquisadora Ana Paula Neves.</p>
<p style="text-align: left;">Era o filho primogênito, fruto de uma gravidez planejada. Desejado e muito amado pelos pais, ganhou o único irmão aos oito anos, com quem mantinha uma relação de grande afeto. Quando criança, costumava brincar com os meninos do bairro. Na adolescência, frequentava muito a quadra de esportes e andava pouco na casa dos amigos, mas recepcionava sempre os colegas. “Ele era muito tímido, calado, caseiro, só andava de casa para a igreja”, relata a mãe. Mesmo ainda tão novo, já participava de um grupo de jovens evangélicos que se dispunham a desenvolver ações de arrecadação de alimentos para doação a famílias em situação de pobreza.</p>
<p>Aplicado aos estudos, cursava regularmente o segundo ano do Ensino Médio. “Nunca recebi reclamações dele na escola, ao contrário, só elogios por onde ele passou”, revela a mãe. O estudante, que se interessava pela área de Telemarketing, chegou a ser transferido de escola, mas por medo da violência, pois já havia sido assaltado algumas vezes no percurso até o estabelecimento de ensino.</p>
<p>O futebol era a grande paixão, que fomentava uma outra. “O pai era apaixonado por ele além da conta”, diz a mãe, reconhecendo até um pouco de ciúmes do forte apego entre os dois. O gosto em comum pelo esporte aproximava ainda mais pai e filho. O pequeno torcedor do São Paulo tinha a companhia do pai para assistir aos jogos na televisão e conversar horas a fio sobre esse e outros assuntos. “O pai ensinava muito o que era a vida, conversava muito com ele, orientava sobre drogas, que não devia namorar mulher casada, pois ele era bonito – chamava muito a atenção, até as mulheres casadas ficavam olhando pra ele”, acrescenta a mãe.</p>
<p>Pais e filhos compartilhavam os programas de lazer dentro e fora de casa e também dividiam os afazeres domésticos. O respeito recíproco fazia com que o adolescente fosse amoroso, sempre<br />
muito obediente e ajudasse na limpeza da residência, varrendo os cômodos e secando as louças. “Nunca se envolveu com o que não prestava”, ressalta a mãe, detalhando que o garoto jamais<br />
usou drogas ou cometeu atos ilícitos, bem como não tinha acesso a armas de fogo nem convivia com pessoas que tivessem.</p>
<p>Diante da fatalidade, a família se mantém unida, agora também em torno da dor. “Sou praticamente mergulhada nos remédios”, desabafa a mãe, depois de ter passado por acompanhamento<br />
psicológico durante meses, mas decidido parar por conta própria. O fi lho também recebeu atendimento por um período, pois sentiu muito a morte do irmão, a principal companhia. “A<br />
mãe relembra que o menino ficou agitado, revoltado, costumava pedir para ela arranjar algo para ele brincar. Primeiro, ela conseguiu um gato, mas, ao viajarem ao Piauí, o avô se afeiçoou ao<br />
animal e pediu ao garoto para ficar com ele. O menino, então, cede o gato ao avô e arranja uma nova companhia, dessa vez um periquito”, descreve Ana Paula Neves.</p>
<p>O pai também necessita de suporte emocional para enfrentar o forte abalo. A companheira revela que ele prefere não tocar no assunto e, se estivesse em casa durante a visita dos pesquisadores do comitê, teria se recusado a conversar sobre o filho. “Enquanto conversávamos, o marido telefonou para a esposa, e ela comentou que, após a morte do fi lho, ele vai trabalhar, mas liga constantemente para saber se está tudo bem. Nesse momento, fiquei pensando que aquele gesto era uma demonstração do amor e cuidado tantas vezes expressado pela mãe ao relatar a vivência da família com o filho falecido”, observa a pesquisadora do comitê.</p>
<p>O sofrimento não imobilizou o pai, que continua trabalhando e ainda busca justiça, apesar do despreparo e da indiferença institucional. Ele foi à delegacia, mas destaca ter sido muito mal<br />
atendido, apesar do estado de dor. A família não conhece o responsável pela morte do fi lho. O delegado se limitou a informar que o autor já havia cometido vários outros crimes na região e a endossar a hipótese circulante na comunidade, onde se comenta que o rapaz que estava sendo perseguido vingou a morte do adolescente, pois o “assassino matou um inocente e deveria morrer”.<br />
O episódio que resultou na morte do garoto seria decorrente do conflito entre membros de gangues rivais.</p>
<p>A mãe do garoto considera que o problema da violência é agravado pela falta de justiça. “Na justiça aqui da terra, eu não acredito. Meu fi lho era inocente, e as autoridades nada fazem”. O adolescente tinha o mesmo nome de um profeta do Antigo Testamento, que significa “aquele que é julgado por Deus”. Diferentemente do personagem bíblico, que viveu até os 72 anos, a morte chegou prematuramente para o adolescente evangélico de Maracanaú, logo no exato momento de intensa felicidade para o garoto. Ele passou a vida olhando para a bola e vendo o sol, mas nem sempre é uma beleza uma partida de futebol.</p>
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		<title>Um tiro violou a cena icônica da maternidade</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Dec 2017 14:34:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Faltavam nove dias para o primeiro aniversário. A mãe já havia começado a organizar a festinha do filho, que nasceu na antevéspera do Natal, no dia 23 de dezembro de 2014. Não houve comemoração, só tristeza e dor. Era segunda-feira, 14 de dezembro de 2015, começo da noite, quando a avó da criança ouviu um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Faltavam nove dias para o primeiro aniversário. A mãe já havia começado a organizar a festinha do filho, que nasceu na antevéspera do Natal, no dia 23 de dezembro de 2014. Não houve comemoração, só tristeza e dor. Era segunda-feira, 14 de dezembro de 2015, começo da noite, quando a avó da criança ouviu um tiro e pensou que fosse mais um sinal sonoro da violência corriqueira do bairro.</p>
<p>Os vizinhos, que escutaram o som mais de perto e também o choro desmedido de um bebê, subiram as escadas do condomínio e se depararam com um rapaz em fuga, dizendo que tinha sido um acidente. Quando os vizinhos entraram no apartamento, viram uma adolescente arquejando na rede de dormir e a criança aos gritos sobre ela. Era a companheira do rapaz que havia se evadido, a mãe que não iria celebrar o primeiro e mais nenhum aniversário do filho.</p>
<p>Um amigo da família correu até o comércio da mãe da vítima para dar a triste notícia. “Quando ela chegou ao apartamento da filha, a garota ainda respirava na rede com o tiro na cabeça. A mãe correu, com outro vizinho que tem carro, e levou a filha ainda com vida direto para o hospital. Pouco tempo depois, ela veio a óbito”, descrevem as pesquisadoras do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, Ana Paula Neves e Mara Carneiro.</p>
<p>O laudo emitido pela Perícia Forense do Ceará não deixou dúvidas: o agressor fez o disparo à queima-roupa. “Ele encostou a arma na cabeça dela. O rosto dela ficou queimado, não só perfurado pelo tiro”, esclarece a mãe. Além do documento oficial, os pais da adolescente tiveram uma prova ainda mais contundente e dolorosa de que não foi acidente: os resquícios de pólvora permaneceram por alguns dias no corpo do neto.</p>
<p>Quando a adolescente foi atingida pelo disparo, estava deitada com o fi lho ao peito. No momento magistral em que amamentava a criança, cena icônica da maternidade, ela foi brutalmente<br />
assassinada. “Morreu pelo punho do próprio companheiro, amamentando em uma rede, acalentando o filho para dormir. O bebê dormia mamando. A forma de fazê-lo dormir era dar de mamar”, relatam as pesquisadoras do comitê, a partir da entrevista realizada com o pai e a mãe da adolescente.</p>
<p>Os dias seguintes à tragédia foram os mais difíceis que o casal viveu. “O pequeno neto chorava a noite inteira, queria mamar, mas não era possível substituir o leite materno apenas pelo mingau na mamadeira. Não era só de fome que ele chorava, mas de saudade do afeto, do cuidado e do carinho da sua jovem mãe”, concluem as pesquisadoras. “Muitas vezes, ele acorda à noite gritando, desconsoladamente, sem que nada explique. Ainda pede para mamar, mesmo cinco meses depois da morte da mãe”, escreveram à época, com base no relato da avó.</p>
<p>O menino estava começando a balbuciar as primeiras palavras, mas após o crime teve um retrocesso no processo da fala. “Durante a entrevista o conhecemos, o vimos brincar, gargalhar e o carinho que sua avó lhe dava. Ela dizia que o sorriso dele é idêntico ao da mãe, nos mostrou fotos e vídeos e deixou muito claro para esta dupla de pesquisadoras, sem dizer nenhuma palavra, que a violência contra a adolescência tem que acabar”.</p>
<p>Cinco meses depois do crime, o caso seguia sem investigação, não tendo sido nem encaminhado à Delegacia de Homicídios. E o agressor continuava foragido. A adolescente conheceu<br />
o rapaz e passou a se relacionar com ele quando já havia se separado do pai da criança e o bebê estava com nove meses.</p>
<p>A adolescente foi surpreendida pela gravidez, pois tomava comprimidos anticoncepcionais, mas ficou feliz quando recebeu o exame com o resultado positivo no dia em que completou 16 anos. “Ela sempre quis ser mãe”, atesta a avó do garoto. Ao descobrir a gravidez, a menina foi morar com o namorado, com o qual já mantinha um relacionamento sério havia quase um ano, mas a relação afetiva entre eles já não ia bem.</p>
<p>A adolescente foi se decepcionando com o companheiro e acabou rompendo o namoro. Ele tornou-se paraplégico em consequência de participação em práticas ilícitas, e atualmente vive em cadeira de rodas – depois de ter sido baleado em situação de conflito, perdeu os movimentos dos membros inferiores.</p>
<p>Quando a adolescente resolveu voltar para a casa dos pais, eles se sentiram aliviados. “Sempre achei que aquele cara iria fazer algo ruim, matar minha filha. Quando acabou, achei que o risco tinha acabado também. Mas infelizmente não tinha acabado”, conta, de forma emocionada, o pai da garota.</p>
<p>Com a ajuda dos pais, ela foi reconstruindo a vida, sobretudo por meio do trabalho. A adolescente havia deixado a escola, ao concluir o ensino fundamental, pois dizia que não se sentia bem em frequentar as aulas estando grávida, mas que retomaria os estudos quando o bebê nascesse. Como ele já estava prestes a completar um ano, a jovem mãe se preparava para voltar à escola no início do ano letivo de 2016.</p>
<p>O segundo companheiro, responsável pela morte da adolescente, também não recebeu a aprovação dos pais dela, pois era outro rapaz envolvido com práticas ilícitas. “No entanto, a família<br />
reconhece que, quando ele passou a namorar a garota, começou a mudar de vida e a se distanciar de atividades ilegais, mas que esse afastamento não durou muito e desagradou a adolescente”.</p>
<p>O rapaz também era muito ciumento, o que a família só ficou sabendo depois da tragédia. “As amigas contaram que ele já havia mordido sua perna uma vez porque ela teria usado um short curto<br />
e que também já havia batido nela. Por causa dessa situação, ela pensava em terminar o namoro. Mas não falava sobre isso com seus pais”. A mãe acredita que a fi lha vinha sendo ameaçada porque desejava pôr fim ao relacionamento. “Quando ele ligava, ela já saía correndo para encontrá-lo, demonstrava sentir medo dele”.</p>
<p>Nos últimos dias de vida, a adolescente passava a maior parte do tempo na casa dos pais, mas à noite voltava para o apartamento onde residia com o companheiro e a mãe dele, no mesmo condomínio. Durante o dia, a garota se revezava entre os cuidados com o fi lho e o trabalho. No apartamento térreo, os pais montaram um pequeno comércio de gêneros alimentícios e produtos diversos, e a filha improvisou um salão de beleza, sonho acalentado desde a infância.</p>
<p>Aos cinco anos, a menina já manifestava o desejo que carregaria ao longo da vida tão curta. “Mãe, quando eu crescer, eu vou abrir um salão pra nós duas trabalhar”. Criança, brincava de cabeleireira com a mãe. Adolescente, queria fazer um curso profissionalizante na área e construir um “puxadinho” na casa dos pais para montar um autêntico salão de beleza. Pouco tempo antes do assassinato, a avó materna começou a fazer uma pesquisa para solicitar um empréstimo e realizar o sonho da neta. “Mas não deu tempo”, suspira a mãe, em voz baixa.</p>
<p>A menina tinha a inclinação inata para o trabalho. Aos dez anos, passou a ajudar a mãe e a avó numa facção de roupas. Quando os pais assavam pastéis para vender, saía oferecendo as frituras<br />
na casa das amigas. Na adolescência, conseguiu comprar alguns equipamentos para fazer procedimentos estéticos na própria residência. “Sua mãe lembra que a adolescente, às vésperas de entrar<br />
em trabalho de parto, com os pés muito inchados, trabalhava o dia inteiro fazendo prancha e hidratação. Depois que o bebê nasceu, ela também não parou. Além das atividades no salão de beleza, revendia moda íntima e confecção para as pessoas da comunidade”, contam as pesquisadoras.</p>
<p>O nascimento do filho só aumentou o senso de responsabilidade da adolescente. Apesar da pouca idade e da inexperiência, “era uma mãe exemplar”, esmerando-se em cuidar da criança em todos os aspectos, desde as necessidades cotidianas de afeto e proteção até as demandas financeiras, como afirma a avó do menino. “Muitas vezes, a mãe da adolescente perguntava se o bebê estava precisando de alguma coisa, mas ela sempre respondia que não estava. A jovem mãe nunca pedia nada para o fi lho. Batalhadora e muito inventiva, procurava produtos que poderiam ser vendáveis no entorno onde morava e, assim, sempre tinha algum dinheiro para o sustento do filho”.</p>
<p>A disposição para o trabalho e o senso de responsabilidade, características próprias de pessoas mais maduras, coexistiam naturalmente como qualidades presentes desde a infância. “Ela<br />
não perdeu o jeito de menina, risonha e extrovertida”, observa a mãe. Mesmo quando mudou da Comunidade Oito de Dezembro, quase no limite de Fortaleza com Maracanaú, para o<br />
Conjunto Habitacional do Canindezinho, a menina continuou cultivando as amizades antigas e estabelecendo novos laços. “Se você perguntar aqui dentro quem era ela, todo mundo vai saber dizer”, frisa a mãe, com a expressão natural de orgulho.</p>
<p>A adolescente sempre teve muitos amigos e como uma das principais diversões fi car na calçada de casa “batendo papo” com eles. De casa, ela só saía para a escola e para a igreja, onde participava de um grupo de jovens. “Eu tinha muito medo de deixar ela sair pros cantos”, explica a mãe, receosa dos perigos ‘do mundo lá fora’. Ela mantinha a fi lha por perto, acreditando que, dentro do condomínio, estava sob proteção.</p>
<p>A menina brincalhona e de risada contagiante cativava os de fora e os de casa. Era boa aluna, carinhosa com os pais e apegada aos irmãos – com o mais novo, de dez anos, ela dividia a cama ao dormir; o mais velho é criado pela avó materna, trabalha e estuda análise de sistemas em uma faculdade privada. Emocionada, a mãe relembra os gestos e palavras de afeição que a filha repetia todas as vezes antes de dormir – “Boa noite, mãe! Eu te amo” – e ao amanhecer.</p>
<p>“Apesar do trabalho duro, os pais nunca deixaram de cultivar a afetividade familiar, o que fez com que os vínculos desta família fossem muito fortalecidos”, constataram as pesquisadoras do Comitê pela Prevenção de Homicídios. Os dois jovens pais, ele com 32 anos e ela com 39, sempre trabalharam muito e em diversos tipos de ocupações para garantir a sobrevivência da família e contaram em muitos momentos com a ajuda da avó materna da adolescente, que sempre morou perto do casal.</p>
<p>“Obviamente, essa história se difere de outros assassinatos de jovens no Ceará, mas dialoga diretamente com todo o contexto que é pano de fundo para as tramas da violência juvenil atual, em um estado do Nordeste marcado pelo machismo, autoritarismo, racismo e desigualdade. Ela não era só adolescente, era não branca e era mulher, condição juvenil que a deixou vulnerável para ser vítima de homicídio pelo próprio namorado, que também era um jovem morador do mesmo território. Debater gênero e a desconstrução do machismo nos parece essencial também para o enfrentamento da violência juvenil”, concluem as pesquisadoras.</p>
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		<title>O fim precoce de uma vida de oportunidades</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Dec 2017 14:34:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O jovem branco, loiro e de olhos claros tinha mais do que um perfil físico diferenciado da maioria dos rapazes da comunidade onde morava. O rapaz de 18 anos apresentava um perfi l social também destoante entres os adolescentes do Bom Jardim. Desde que veio ao mundo, em 1997, vivia em condições satisfatórias para a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O jovem branco, loiro e de olhos claros tinha mais do que um perfil físico diferenciado da maioria dos rapazes da comunidade onde morava. O rapaz de 18 anos apresentava um perfi l social também destoante entres os adolescentes do Bom Jardim. Desde que veio ao mundo, em 1997, vivia em condições satisfatórias para a realidade daquele bairro da periferia de Fortaleza, onde sempre viveu.</p>
<p>Fruto de uma relação sólida de dez anos, embora pai e mãe nunca tivessem morado juntos, o menino nasceu de uma gravidez planejada. O pai, professor de artes marciais, foi campeão nacional de karatê várias vezes e se tornou autor de livros. A mãe, também professora de karatê e campeã cearense de fisiculturismo, virou microempresária no ramo de confecção de roupas e proprietária de loja de produtos para festa de aniversário.</p>
<p>O garoto foi amamentado até quase quatro anos. Primeiro neto da família, esteve sempre cercado pelos tios, a avó e a bisavó. Filho de esportistas, não quis seguir a trajetória dos pais. “Ele nunca gostou de lutar. Dizia que não queria ser agressivo como eles. O único esporte que fazia era futebol. Era um jovem muito tranquilo e achava os pais um tanto explosivos, atrelando essa característica à prática de artes maciais”, descreve a pesquisadora do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, Mara Carneiro, a<br />
partir da entrevista com a mãe.</p>
<p>O rapaz gostava de alugar campos society para jogar com os amigos, mas foi durante uma partida de futebol que conheceu um traficante de drogas com quem começou um desentendimento que levou ao desfecho trágico. Dias depois de ameaças veladas, olhares de intimidação, o jovem foi assassinado quando saía da casa da bisavó em direção à própria residência. No caminho, vinha uma motocicleta, e na garupa, o agressor.</p>
<p>A mãe ouviu de casa o barulho dos tiros naquele 20 de junho de 2015, mas todos os dias ela escutava disparos de arma de fogo na comunidade ou alguma narrativa de homicídio. No bairro que tem um elevado índice de assassinatos, a violência se tornou cotidiana, banal. “Mas sua irmã chegou em casa aos prantos”. A mulher levou o fi lho ao hospital, embora já não houvesse mais o que fazer.</p>
<p>Uma vida de oportunidades interrompida precocemente. O rapaz morava em uma “casa grande e bonita, com portas de madeira trabalhadas, cerâmica no piso e portões de alumínio”, como descreve a pesquisadora do comitê. Estudou a vida inteira em escola privada, durante muito tempo em um dos colégios mais caros de Fortaleza. “Se ele tinha um defeito, era não gostar de estudar”, aponta a mãe. Por causa da indisciplina, o adolescente teve de procurar outra escola, matriculando-se em um colégio particular do próprio bairro onde morava, mas abandonou os estudos no primeiro ano do Ensino Médio.</p>
<p>Quando foi morto, o rapaz já estava há quase um ano fora da escola. “Ele dizia que queria trabalhar. Havia tirado a carteira de motorista e resolvia vários problemas da família com<br />
o carro. Também trabalhava como pintor profissional e com aplicação de textura em parede; apesar de eventual, conseguia tirar um bom dinheiro dessa atividade”, descreve a pesquisadora, com base no relato da mãe.</p>
<p>Era um jovem que se diferenciava na comunidade, entre os meninos da mesma faixa etária, pela facilidade de acesso ao consumo. “Ela dava tudo para ele, gostava de vê-lo bem bonito, com roupas boas, com dinheiro no bolso para sair com amigos para bares caros, Beira Mar, shoppings&#8230; Ela dizia: Ele era um bom filho, merecia tudo de bom e eu tinha prazer em dar tudo a ele”, acrescenta Mara Carneiro.</p>
<p>O rapaz chegou a cumprir medida socioeducativa sem ter cometido ato infracional, segundo a mãe, mas por assumir uma responsabilidade que era do tio: porte ilegal de arma. “Ela relata que tanto o juiz como a assistente social que o acompanhava na medida socioeducativa diziam que ele não tinha perfil para estar ali e perguntavam por que ele assumia esse ato infracional. O rapaz foi liberado no primeiro relatório, pois não apresentava dificuldade para o cumprimento da medida. Ele insistia que tinha cometido o ato, mas ninguém acreditava”, descreve a pesquisadora.</p>
<p><em>* Esta história de vida foi escrita pelo jornalista Raimundo Madeira, no relatório Cada Vida Importa, a partir do diário de campo produzido pela assistente social Mara Carneiro, pesquisadora do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência.</em></p>
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